“ QUANDO E COMO CONTAR PARA A CRIANÇA?”
- Muitas vezes os depoimentos vivenciados e as “dicas” sobre como e quando revelar a adoção para a criança, é que ajudam a acalmar a alma de quem não consegue imaginar como fazer isso. É importante perceber que há várias formas de contar e cada um deve encontrar a sua, não é simplesmente “copiar” ou “imitar” o que outras pessoas fizeram, afinal cada criança é uma criança, cada criança reage de um jeito, e muitas vezes a criatividade e espontaneidade infantil destroem os ensaios e as imitações.
COMO CONTAR?
- Uma boa “dica” , além de agradável, é assistir junto com a criança desenhos animados que contém a adoção como pano de fundo, e são vários: Tarzan, O Príncipe do Egito, Stuart Litlle, Hércules, Dinossauro...
- Outra idéia é criar uma história de contos de fadas em que a adoção seja parte fundamental, para contar à noite na hora de dormir. Eu contava uma em que o príncipe e a princesa não conseguiam ter um bebê e ouviram falar de uma fada do outro lado da floresta que podia resolver esse problema. Aí vão acontecendo várias aventuras para atravessar a floresta, quando o príncipe e a princesa encontram a fada ela lhes diz que não tem poderes para colocar um bebê na barriga da princesa, mas que conhece uma mulher que precisa dar seu bebê para alguém cuidar dele e amá-lo como filho.
QUANDO CONTAR?
Se a criança foi adotada ainda bebê, e portanto, não tem lembranças de sua história anterior, é melhor esperar que ela manifeste sua curiosidade, igualzinho a qualquer criança, por volta dos três ou quatro anos, vai observar mulheres grávidas, às vezes comentar que viu uma mulher muito “gordona”. Ao ouvir a explicação que essa mulher não é gorda e sim que tem um bebê na barriga, logo vai perguntar: “mamãe, eu morei na sua barriga?” ou, “mamãe eu também saí de sua barriga?”
- Atenção para que as respostas às perguntas da criança sejam curtas e objetivas, ou seja, simplesmente responda: “não, você não saiu da barriga da mamãe, você saiu da barriga de outra mamãe”. E se prepare para às vezes ter que responder a mesma pergunta diversas vezes, como se a criança desejasse confirmar aquela resposta e se acostumar com o fato.
- Evite querer se antecipar às perguntas da criança, ela pode não estar interessada ainda no que você está querendo explicar.
- Algumas crianças vão repetir a pergunta diversas vezes, mas outras crianças podem “negar” o fato, repetindo de forma afirmativa a questão, por exemplo, procurando fotografias em que apareça a mãe grávida “com ela na barriga”, ou fazendo afirmações do tipo: “quando eu estava dentro da sua barriga o que você pensava de mim?” Reforce a resposta correta e objetiva: “Eu pensava muito em você e queria muito que você chegasse logo, mas nessa época você não estava na minha barriga, você estava na barriga de outra mamãe”.
O QUE REALMENTE NOS DÁ MEDO?
Talvez o que mais assuste a nós pais adotivos, seja o medo de que essa criança que amamos tanto e que não queremos que sofra, nos pergunte: “porquê minha mãe não me quis?”
Dá um medo danado, pois nos colocamos no lugar da criança e ficamos imaginando o tamanho do sentimento de rejeição e da dor que isso provoca. Mas uma criança de três/quatro anos de idade não faz esse tipo de pergunta, na realidade nós é que projetamos nela todo o nosso medo de ser rejeitados e todas as nossas dores por rejeições que já sofremos.
Outro “medão” é que ela queira conhecer a mãe biológica. Mas isso requer um grau de elaboração que essa criança pequena também ainda não tem. Perguntas sobre a mãe biológica surgirão bem mais tarde, provavelmente após os cinco ou seis anos de idade. E perguntar por essa mãe biológica, não é necessariamente querer conhecê-la, mas muito mais querer saber algo mais sobre a sua própria história.
FILHO DO CORAÇÃO!!!!
“Você é minha filhinha do coração”. “Você nasceu do meu coração!!”
Belíssima simbologia. Mas somente para nós adultos e para os adolescentes. Crianças pequenas ainda não possuem elaboração simbólica de pensamento, raciocinam no concreto, e diante de frases como essas algumas dizem: “Mãe, você ta louca, coração não tem barriga, não dá para eu nascer do seu coração”.
“SURGEM NOVOS MOMENTOS DE REVELAÇÃO: O FILHO ADOTIVO CRESCE E AMPLIA SUAS INSERÇÃO SOCIAL”
Chegou à hora de matricular a criança na escola. O que fazer, contar,ou
não, na escola, que é um filho adotivo? E para quem contar na escola?
Mais uma vez observamos que a revelação da adoção não se faz em uma só conversa, mas é parte da história dessa criança para sempre, e o que muda é quem está contando, porque e para quem está contando.
A entrada na escola faz com que se inicie uma nova fase no processo evolutivo da construção da identidade de filho adotivo, mas é como se esse novo momento comece a repetir o que já foi vivenciado dentro da família adotiva, no que se refere à revelação da adoção para parentes, amigos e para a criança.
Voltam perguntas semelhantes.
Antes: Conto ou não conto para meus amigos e parentes que decidi adotar um filho?
Agora: Conto ou não conto na escola que meu filho é adotivo?
Antes: Para quem, na minha família e dentre meus amigos, acho importante contar primeiro sobre minha decisão em adotar um filho?
Depois: Para quem na escola eu acho importante contar sobre a adoção? Só para a professora ou para a escola toda?
Antes: Eu sou responsável por decidir se devo ou não contar, e para quem devo contar sobre a adoção, não preciso sair anunciando publicamente que meu filho é adotivo.
Depois: Meu filho, mesmo pequeno, já começa a ser dono de sua história, e se eu não falar nada na escola e ele começar a contar que: “não saiu da barriga da mamãe”, ou que “tem duas mamães”. Como essa professora vai reagir?
O FILHO ADOTIVO VAI À ESCOLA
Para todas as crianças, a escola, é um ambiente de vida particularmente significativo na sua formação pessoal e social, seja pelas ligações que se estabelecem com professores e colegas, seja pelas importantes implicações emotivas relacionadas com as expectativas do mundo adulto.
É determinante para o desenvolvimento da personalidade, das competências e da integração social, o posicionamento que professores e pais assumem frente à entrada e convivência da criança adotiva na escola.
A escola, através de atividades didáticas pode desenvolver conceitos e relação de respeito às diversas formas de paternidade e de maternidade, participando da formação de novas percepções relacionadas às novas estruturas familiares que vão se estabelecendo na sociedade (as famílias adotivas, as separadas, as de novos casamentos e os meio-irmãos, mães/pais solteiros ou viúvos....). A escola pode proporcionar aos alunos a percepção das características específicas de cada um desses tipos de composição familiar, incluindo-se aí as especificidades da família adotiva.
Outro aspecto que a escola tem papel fundamental, é em relação ao respeito à diversidade racial, o que atinge diretamente famílias que assumiram a adoção inter-racial. A escola precisa estar atenta às inúmeras possibilidades de valorizar a “diversidade” como instrumento pedagógico, e não com obstáculo à educação.
A primeira pergunta que precisamos fazer a nós mesmos é: “chegou a hora de matricular meu filho na escola, devo ou não contar na escola sobre a adoção?” e mais, “para quem, na escola, eu devo contar?”. Penso que não é necessário contar para toda a escola que meu filho é adotivo, basta contar para a professora, e se necessário trocar idéias com essa professora sobre como você acha importante lidar com essa história.
E o processo evolui, na maioria das vezes, é necessário mudar a criança de escola quando ela chega ao final da primeira fase do primeiro grau(atual 5ª série), mais ou menos aos 10 ou 11 anos de idade. E nessa idade devo ou não falar de adoção na nova escola? Ou a partir de agora meu filho já tem condições de escolher se quer ele mesmo contar sobre a adoção, quando e para quem.
À medida que nossos filhos crescem, vão se tornando donos de sua própria história, e nós, os pais, já não temos o direito de falar por eles, vamos aos poucos assumindo o papel de retaguarda nas decisões que eles mesmos tomarão sobre a revelação da adoção.
“O FILHO ADOTIVO ESTÁ VIRANDO ADOLESCENTE. A REVELAÇÃO AINDA É TEMA PRESENTE?”
· Aos poucos precisamos nos conscientizar que esse “segredo” vai cada vez mais pertencendo ao filho adotivo, e é preciso respeitá-lo, posso me revelar e me identificar como mãe/pai adotivos, mas sem identificar meu(s) filho(s).
· A vida continua, a criança cresce, torna-se um adolescente ou um jovem adulto, e novos momentos relacionados à sua decisão de contar sua condição de filho adotivo, começam a surgir: contar ou não para o(a) namorado(a)? E as questões voltam e novamente o processo se repete:
· O(a) namorado(a) precisa saber sobre a adoção? Quem deve contar? Quando é o momento de contar para o(a) namorado(a)?
· Se o namoro evolui para um relacionamento mais estável, a família do(a) namorado(a) deve saber sobre a adoção?
· Quem conta e quando conta para a família do(a) namorado(a)?
E assim, se constrói história de vida de uma família adotiva, e a famosa pergunta: “quando e como contar que meu filho é adotivo?”, se apresenta em diferentes momentos de nossas vidas, faz parte de nós e de nossas vidas para sempre........
Vera Lucia Alves Cardoso
(voluntária do Grupo de Estudos e Apoio à Adoção de Goiânia/GEAAGO)
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