Iniciamos com uma breve história do Projeto Anjo da Guarda, idealizado pelo Juiz Maurício Porfírio Rosa e implantado em fevereiro de 2005 na Vara da Infância da Comarca de Goiânia. Após a realização do 10ºENAPA em Goiânia, o GEAAGO recebeu convite para, em conjunto com a Vara da Infância, gerenciar a execução do projeto. Essa parceria foi formalizada através de convênio de cooperação técnica, publicado no Diário Oficial de Justiça do Estado de Goiás em outubro de 2005.
O Projeto Anjo da Guarda tem como público alvo as crianças e adolescentes abrigados na Comarca de Goiânia, que tenham mais de cinco anos de idade e perspectivas de uma permanência prolongada no abrigo. O principal objetivo do projeto é o de encontrar famílias interessadas em acolher essas crianças/adolescentes, a princípio como "famílias madrinhas", que após avaliação e preparação para o papel que exercerão durante o apadrinhamento, passam a visitar o(s) afilhado(s) no abrigo, posteriormente começam a leva-lo(s) para passarem os finais de semana, feriados e férias escolares em seus lares. Essa construção gradativa de vínculos afetivos, pode ou não, evoluir para o pedido de guarda do afilhado, com o conseqüente desabrigamento do mesmo. A convivência diária proporcionada pela guarda pode então evoluir, ou não, para a adoção, transformando o(s) afilhado(s) em filho(s).
As crianças/adolescentes somente são incluídas no projeto a partir do encaminhamento feito pela Divisão de Fiscalização e Acompanhamento das Entidades de Abrigo (DFAE) que funciona na Vara da Infância da Comarca de Goiânia, e segue os seguintes critérios:
* Situação jurídica definida como disponível para adoção
* Situação jurídica definida como alta probabilidade de vir a ser disponibilizado para adoção, ou já com o processo de destituição de poder familiar proposto ou iniciado.
* Em processo de avaliação e acompanhamento de uma situação familiar complexa, indicando uma permanência prolongada no abrigo, mas não disponível para adoção.
As famílias interessadas em participar do projeto passam por:
* Preenchimento de ficha de inscrição no projeto
* Entrevista e visita domiciliar (feita por técnicos da Vara da Infância)
* Participação no Grupo de Preparação para o Apadrinhamento Afetivo (feito pelo GEAAGO).
Cruzam-se os dados da família e os dados das crianças/ adolescentes, tomando-se extremo cuidado para que as famílias que se identificaram como interessadas em futura adoção apadrinham exclusivamente crianças/adolescentes igualmente disponíveis ou com altas possibilidades de serem disponibilizadas para adoção. As crianças/adolescentes que possuem famílias biológicas que mantém o vínculo e estão sendo avaliadas e acompanhadas visando o retorno para casa, são apadrinhadas exclusivamente por famílias que não desejam adotar e sim oferecer apoio e ajuda para uma criança carente.
Os procedimentos de acompanhamento das "Famílias Madrinhas" são:
* Contatos com o abrigo para saber se a família está visitando ou buscando a criança conforme o compromisso estabelecido.
* Reunião semestral de todas as "Famílias Madrinhas" para uma roda de conversa e troca de vivências e, orientações relacionadas a dificuldades surgidas durante a convivência com a criança/adolescente.
* Todas as famílias que solicitam o desabrigamento e a guarda do(s) afilhado(s), são encaminhadas para um profissional especializado em Terapia de Família, devendo participar desse processo terapêutico pelo período mínimo de três meses, oferecido gratuitamente. O projeto possui um cadastro de Terapeutas de Família que se propõem a fazer trabalho voluntário. Tantos os terapeutas de família como a coordenação do projeto participa de uma supervisão semanal com uma professora do curso de especialização em terapia de família (essa supervisão também é trabalho voluntário para o projeto).
* Após os três meses de acompanhamento terapêutico, é feita uma avaliação na supervisão e o terapeuta responsável elabora um relatório técnico que é anexado ao processo da criança/adolescente. Esse relatório é peça fundamental para elaboração de parecer sobre a efetivação de um pedido de adoção.
* Se, após três meses, a avaliação concluir por prorrogação do acompanhamento terapêutico, isso é feito. Se a equipe concluir pelo encerramento do acompanhamento terapêutico, e a família quiser dar continuidade a esse processo, isso passa a ser feito sem a intermediação do projeto, transformando-se em um contrato direto entre a família e o terapeuta.
* Após o encerramento do processo terapêutico oferecido pelo projeto, as famílias guardiãs passam a receber acompanhamento através de visitas domiciliares regulares e convites para as reuniões semestrais. Esses procedimentos também geram relatórios que são anexados ao processo da criança/adolescente.
* Concluída a adoção, os contatos com as famílias passam a ser feitos somente por solicitação da mesma.
GRUPOS DE IRMÃOS
Entre 2006 e 2007, diversas crianças/adolescentes sozinhos e uma dupla de irmãos foram colocados em famílias madrinhas. Alguns já estão com a adoção concluída e outros se encontram em processo de acompanhamento da guarda. Surge então um novo desafio no projeto: um grupo de três irmãos é encaminhado ao projeto, com a destituição de poder familiar iniciada. A equipe técnica da Vara da Infância já havia dado busca no cadastro a procura de algum casal habilitado que tivesse interesse em ficar como as três crianças e não encontrou. Como fazer para não separa-los?
Naquele momento iniciávamos um "Grupo de Apoio e Preparação para Adoção" (Pré Natal da Adoção), e no grupo surge um casal que manifesta interesse em adotar crianças maiores e diz aceitar até dois irmãos. O casal é imediatamente encaminhado para se inscrever no Projeto Anjo da Guarda. Durante o Pré Natal da Adoção, um outro casal, após muitas perguntas e reflexões, manifesta interesse em mudar o perfil da criança desejada ( que era uma criança de no máximo dois anos de idade) e, é também encaminhado para se cadastrar no projeto.
Encerrado o Pré Natal da Adoção, teve início o "Grupo de Preparação para Apadrinhamento", e os dois casais participaram. Já havíamos observado que durante o Pré Natal da Adoção os dois casais se conheceram e não tiveram problemas de relacionamento, antipatias ou algo que passasse a idéia de alguma rejeição. Observamos também que os dois casais estavam muito empenhados em realizar todas as exigências para conseguir adotar um filho, são pessoas jovens e de nível sócio-cultural semelhante.
Mesmo sabendo que nenhum dos dois casais havia colocado em sua ficha a possibilidade de adotar três irmãos, conversamos com os casais sobre o apadrinhamento dos três irmãos e futura adoção. Diante da resposta negativa, apresentamos a possibilidade de um deles apadrinhar a criança mais velha e o outro apadrinhar os dois menores. Explicamos a importância de tentarem promover uma convivência que permitisse o contato entre os irmãos. A proposta foi aceita. Entrávamos o mês de dezembro adentro, anunciando as férias escolares e o período de festas de final de ano. Os dois casais receberam autorização judicial para levarem as crianças para suas casas durante todo o período das férias escolares. Pedimos que permitissem às crianças que conversassem por telefone sempre que quisessem, e tentassem organizar alguns passeios conjuntos. E as férias transcorreram com diversos passeios em conjunto.
Encerrado o período de férias escolares, os dois casais solicitaram o desabrigamento e as guardas das crianças. Iniciaram o processo de acompanhamento com duas terapeutas de família, cada subgrupo familiar elaborando seu processo intra-familiar de construção de uma nova família. Permanecem mantendo contato constante e, não só promovem encontros entre os irmãos, como trocam idéias e dúvidas entre si, criando uma relação de apoio mútuo.
Próximo passo: em breve o processo terapêutico passará pela união de todos, com as duas terapeutas trabalhando em conjunto com o sete membros que se inter- relacionam e formam essa ampla família. A idéia do trabalho em conjunto é de ajudar na percepção que cada um tem de si, e dos outros, nesse conjunto familiar; como cada um imagina a continuidade dessa convivência, quais as expectativas e os limites de cada um nessa história coletiva.
Novos ritmos e novos rumos na adoção. Novos contextos e novos olhares. Novas narrativas de família.
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